A antiga mania de fornecedores presentearem agentes públicos

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(Marco ASA) – Sabe o que mais me irrita na nojeira que se transformou nosso noticiário político? A hipocrisia! É um tal de “estou indignado com as delações maldosas”, ou “só recebi doações dentro da lei” que dá nojo. Mais nojo de empresários que se vestem de honestidade para condenar os “bandidos corruptos” ou “petralhas nojentos”.

Vamos lá: eu já trabalhei em tudo quanto é lugar e sou um ótimo observador. Um dos meus primeiros empregos foi em uma empresa de máquinas pesadas, como pás carregadeiras e tratores. Os principais clientes da empresa eram os prefeitos e seus secretários.

Eu tinha uns 16 anos e notava o grande poder de influência do comprador e atendimentos às autoridades da firma. Lembro de um prefeito de interior que mandou duas pás carregadeiras em ótimo estado que foram totalmente reformadas, com peças novas, sem necessidade. Em troca, no final do ano, o prefeito ganhou um Jet Sky e os secretários ganharam videocassetes que, na época, custavam uma pequena fortuna.

Depois trabalhei em uma empresa que fornecia material de isolamento. Os principais clientes eram construtores e síndicos, que reformavam seus edifícios e mandavam implantar o tal material nas paredes dos salões de festas. Pois me lembro de, no final do ano, ficar incumbido de comprar caixas e mais caixas de whisky (do bom) para síndicos. Lembro, também, de depositar cheques nas contas de síndicos a mando do dono da empresa. Na época, nem me tocava do que seria. Hoje eu sei.

Nessa minha vida já vi gente fazendo notas de anúncios que nunca existiram. Vi agências de publicidade produzindo revistas e formulários que iam pro lixo (apenas pra tirar nota). Vi empresários da comunicação imprimindo apenas dez exemplares de jornal apenas para receber dinheiro de anúncio de prefeituras ou para editais que só os “chegados” do prefeito poderiam ver e participar de licitações. Câmaras municipais sendo reformadas e os presidentes das referidas câmaras aparecendo com carros zero quilômetro do nada, e por aí vai.

É claro que as empreiteiras (todas as que prestam serviços às entidades públicas) têm setores de propina. Existem tabelas que vão de 3% a 10% do valor das obras em todas as esferas e todos recebem, do síndico que faz obras intermináveis nos prédios até os deputados que fazem emendas para verbas para estados e municípios.

Aliás, você sabe por que os deputados amam as emendas parlamentares? Porque a maioria recebe seus “cafezinhos” por isso. Calcula-se que de cada dez reais que sejam liberados em emendas, apenas cinco realmente cheguem ao seu destino final… se chegarem. A metade fica nas comissões para deputados, prefeitos, governadores, secretários etc.

Basta fazer as contas. Por que alguém gasta quatro milhões em uma campanha para um salário de 14 mil? A conta não bate. O lucro virá de algum lugar e, podem ter a certeza, não será do orgulho de servir ao povo.

Então, meu caro e minha cara, a corrupção no Brasil é endêmica, em todas as esferas. Do síndico que faz a obra do seu prédio, do mercado que fornece comida para a creche, da loja de material de construção que fornece cimento para a empreiteira do cunhado do prefeito construir a creche e, por aí vai.

Eu queria muito estar errado. Mas não estou.

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